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A minha família nao e excepcao…

As Famílias mudam bastante e a minha não é excepção à catástrofe.

Quando os Filhos ainda moram em casa dos Pais, a união nota-se, o diálogo é constante, mesmo que por vezes um pouco alterado e fora de tom. Os irmãos partilham confidências, riem-se das piadas mútuas, partilham a dor dos momentos menos bons, protegem-se e dão conselhos.

As refeições são animadas, alimentam-se discussões à mesa de variadíssimos temas, tudo participa e colabora, reina a harmonia no lar.

Pior acontece quando as vidas se separam da família nuclear, porque os filhos saem de casa e criam novas famílias, e é  nessa altura que os irmãos que eram confidentes deixam de o ser, as reuniões à mesa agora são esporádicas e protocolares e a partilha e a protecção que existia esfumou-se.

 

Paula Pinto Ribeiro.

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Isto é que vai uma crise…

Quando perguntas a um Português conhecido que encontras na rua “Então como vai a vida”, a resposta é quase sempre a mesma “Vai-se andando…”; agora eu pergunto-me, qual será a resposta desse mesmo Português quando começarem a ser aplicadas as medidas do Governo para atacar a dita crise, certamente que não será nada animadora e quiçá insultuosa.

Vamos ser francos, como é que podem pedir boa cara e optimismo quando vamos pagar a factura de consequentes más governações, envoltas em despesismo e corrupção, e como se não bastasse ainda somos confrontados com a dívida da Madeira, que reclama a independência mas não prescinde de viver às custas do erário do Continente.

A U.E. quer garantias de pagamento, a Troika fiscaliza e pressiona a soluções, e o Governo na figura do Sr. Ministro das Finanças transmite em horário nobre um pacote explosivo de medidas que em nada envolvem o corte na despesa dos diversos organismos públicos ou a tributação dos muito ricos como se alvitrava.

É caso para dizer Pai, perdoai-os que eles não sabem o que fazem.

Paula Pinto Ribeiro

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I want to fly to a safe place…

Se tivesse asas voava, voava sem parar, voava até minhas asas não poderem mais, e nessa altura então repousava num qualquer galho de uma árvore qualquer, de preferência perto de uma casa que eu pudesse mirar, a casa duma família jovem, onde reinasse a azáfama diária, a correria contra o tempo em todas as manhãs de escola e trabalho, com pequenos-almoços tomados à pressa, a mãe gritando para que se despachassem, os filhos gritando de volta reclamando que não sabem daquela camisola preferida que provavelmente deve estar para lavar, o pai não fugindo à regra dando ultimatos para entrarem no carro cujo motor já se ouvia trabalhar há alguns minutos.

Finalmente é dada a largada, embora sempre em alvoroço, os filhos porque discutem os melhores lugares nos bancos de trás, o pai porque reclama do trânsito, a mãe porque já não os consegue ouvir todas as manhãs a reclamar quando ela é que acorda mais cedo para os fazer despertar, preparar os pequenos-almoços, lanches, etc.

E eis que passado este frenesim todo, reina a calma, o silêncio, passada a tempestade vem a bonança, de tal forma que até dá para suspeitar, estranhar, e até incomodar, mas o que é bom não dura para sempre e num abrir e fechar de olhos tudo começa de novo com o regresso a casa, tão caótico como as partidas da manhã.

Os miúdos regressam das aulas cheios de histórias para contar, carregados de TPC que teimam em adiar em prol das consolas de jogos, das séries ou desenhos animados da TV, das sms, dos messenger e facebooks, enquanto a mãe se ocupa do jantar, responsável por reunir todos à mesa em constante diálogo e diversão.

E assim completa-se um dia deveras extenuante mesmo para um mero mirone como eu…

Paula Pinto Ribeiro

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Grito de Liberdade

A minha insegurança arruína-me, o meu constante refúgio num lugar de aparente tranquilidade só faz adiar e enfatizar os meus problemas.

Eu impeço-me de ser Feliz e bloqueio em mim qualquer rasgo de Liberdade e Felicidade, apegando-me a sentimentos negativos altamente castradores da pessoa que julgo e quero ser.

Se eu pudesse gritar bem alto, e assim expurgar todos os meus males eu faria. Subiria para o ponto mais alto do Grand Canyon e gritaria com todas as minhas forças, com todo o meu vigor, projectando a minha voz a Kms de distância.

 

(O autor deste texto prefere o anonimato).

Chegou mais um Natal e com ele chegaram as sms feitas, sacadas da net ou encaminhadas de um amigo, os até amanhã ou até logo foram substituídos por feliz natal, as conversas resumem-se às prendas que ainda restam comprar, do que vai constar da ementa, etc, os sorrisos abundam mais do que nos dias normais, é a corrida desenfreada aos shoppings dos que se deixam para a última da hora, são as filas nas caixas de supermercado e o trânsito lento.
No final do dia as casas enchem-se de cor e amor, de risos e gargalhadas, de comida e bebida, da azáfama nas cozinhas e junto ao pinheiro onde repousam as prendas que inquietam e aguçam a curiosidade dos mais pequenos. Mas isto é parte do mundo em que alguns privilegiados como eu vivem, a outra parte não conhece o Natal, conhece mais um dia de sobrevivência.
Falo daqueles que dormem ao relento, que dependem da caridade alheia, dos que vivem o sofrimento da solidão, da clausura, da doença, do desprezo, da fome, falo daqueles a quem a vida nunca sorriu ou de repente deixou de sorrir.
A esses e especialmente a esses vai o meu pensamento este Natal e o desejo enorme que suas vidas venham a ser tão ou mais privilegiadas do que a minha.

Paula Pinto Ribeiro

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Posturarte | a model at your way

Posturarte | Marquesas

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O Tango vai torto…

“A vida vai torta, jamais se endireita, o azar persegue, esconde-se à espreita…”.

Quantos de nós já não se reviram na letra da música “Circo de Feras” cantada pelos famosos Xutos e Pontapés, eu atrevo-me até a dizer que podemos encaixá-la na situação actual que atravessa o nosso país.

O orçamento vai torto, jamais se endireita e a crise persegue e esconde-se à espreita, enquanto os líderes dos dois maiores partidos portugueses não acertarem nos passos correctos para dançarem o Tango em conjunto, evitando assim pisadelas desnecessárias, que tanto fazem gemer o povo português.

Aprendam a dançar o Tango, estamos fartos de gemer.

Paula Pinto Ribeiro

Já aconteceu estares sózinha num café com a sensação que os olhares se desviaram para ti enquanto tentas não parecer incomodada ao mesmo tempo que ocupas as mãos com o telemóvel que finges manusear ou com um jornal que folheias e  finges ler atentamente, ou com a colher que usas para retirar os restos de café que se alojaram nas paredes da chávena.

E assim passas o tempo que parece não ter fim, começando a perder a calma, culpando-te por seres tão pontual ou culpando a companhia que não chega a quem difamas baixinho.

Finalmente acaba o teu tormento com a chegada da pessoa que tanto esperas, a quem apesar do atraso e das falsas desculpas cumprimentas cordialmente, minimizando a sua indelicadeza quando na resposta à pergunta:

- Esperas-te muito?, tu dizes:

- Não, cheguei à pouco…

Paula Pinto Ribeiro

Brenda acordou com as previsões do boletim metereológico. Por sinal nada animador. Ensonada desvalorizou a notícia e afundou-se ainda mais no conforto da sua cama king size. Grande demais para ela que, de vez em quando, aceita visitas para a tornar bem mais aconchegante.

Infelizmente, os parceiros aos quais não resistiu, não chegam a aquecer o lugar. Somem sem deixar rasto e livres de remorso. Há algo crónico nela que cede aos encantos de manipuladores sexuais e alérgicos a compromissos. Só sabem seduzir e satisfazer suas necessidades primárias, junto de Mulheres carentes de afecto como ela.

Farejam-nas à distância e aproximam-se com interesse. Basta cruzarmos nosso olhar com o olhar desse clube de predadores, que proliferam em diversos ambientes, para acabarmos paralisadas na sua teia apertada de sedução. Foi assim com Diego, Boris, Von, John, Pietro e, tantos outros turistas do seu coração. Cada um deles abalou seu orgão vital à sua maneira e só não deixaram estrago, porque ela soube escapar antes do desfecho final. Meia dúzia de noites de prazer e nada mais.

Teme não ter cura para esta sua tendência para entreter machos que exalam infidelidade. Já tentou desviar o foco mas o seu desvio acabou por se tornar altamente desinteressante. Apareceram obcecados, avarentos, chatos, melados, picuinhas, hipocandríacos, dependentes emocionais, ciumentos, filhos dedicados às suas mães, fanáticos desportivos, etc.

A companhia prolongada com algum destes cromos ditaria o fim da sua sanidade mental.

Esta semana recebe a visita da sua Amiga, de longa data, Sally. Em digressão por todo o país, na apresentação do seu novo albúm e vai aproveitar para matar saudades suas. Sally foi a sua companhia permanente ao longo da sua adolescência e a Amizade dura até hoje. Viveram tantos momentos juntas, partilharam suas Vidas, esconderam segredos, sobreviveram juntas a uma adolescência difícil, choraram e riram juntas, foram atraídas pela euforia das bebedeiras, dos rapazes populares, dos charros, das escapadelas das aulas. Foram tantos e tão bons momentos, que não se cansa de repassar na sua memória.

Era tanta a cumplicidade que fizeram um pacto de irmãs. Nunca perder o contacto, mesmo que suas Vidas venham a ser preenchidas por marido, filhos e compromissos domésticos decorrentes da Vida familiar. Até agora não foi apanhada por essa epidemia familiar. Acho que não se enquadra no perfil da Mulher casada, com filhos e presa a obrigações caseiras. Não é pessoa de fazer fretes e a participação familiar obriga a isso. Se vier a ter uma relação duradoura será em moldes pouco convencionais. Não haverá conta conjunta, não haverá vinte e quatro horas juntos, não haverá explicações a dar, não haverá disputas pelo comando da TV, não haverá património em comum, não haverá sogras nem sogros, nem cunhadas nem cunhados, não haverá filhos, nem sobrinhos, não haverá casamento. Haverá sim muita cumplicidade expontânea.

Para si liberdade é sinónimo de felicidade e as amarras comprometem esse estado. Casamento é palavra maldita no meu vocabulário, se bem que já foi feliz nalgumas bodas. Pena que essa felicidade não tivesse durado mais que uma noite. O casamento de terceiros, produz uma magia qualquer que a cativa e a faz acreditar no Amor. Só que a sua versão do Amor vem sempre resumida e não chega a formar uma história. Se bem que ela não gosta de complicar. É mais de abreviar e não prolongar, para assim não ter que fazer escolhas difíceis. Apostar numa carreira profissional ou entregar-se a um Grande Amor, cair em tentação ou perder a tentação, partilhar ou não partilhar, sexo poligâmico ou sexo monogâmico, conservar um grande amigo ou acumular vários amigos coloridos. É tudo uma questão de opção.

Decide preparar a recepção da sua Best Friend de sempre. Não podem haver tempos mortos. São ambas irriquietas e só conseguem combater a sua irriquietude, estando ocupadas.

Cabeleireiro, SPA, compras, jantares convívio, que se prolonguem noite dentro e com doses substanciais de risadas, martini com àgua tónica ou melhor vários martinis com àgua tónica, luz indirecta, música non stop, corpos mal cobertos por transparências que se movem com sensualidade, saltos altos, conversas ao ouvido e muito contacto físico. E muito importante, red carpets para alinhar nosso passeio da fama, que se quer elegante e sublime. Brenda já foi vítima da calçada portuguesa, quando esteve uma temporada em Lisboa e, foi por pouco que, sua perna não foi engolida por um boeiro faminto. Esconderijo de animais rastejantes e imundos que não combinariam bem com o seu vestido de chiffon.  Prefere animais mais selvagens para a cobrir e de preferência de duas patas.

Deu folga à sua guru espiritual, antecipou suas férias aliás reclamou as férias que tinha a haver do ano passado, foi lavar o seu combinado cinco portas black edition in and out e devolver-lhe a dignidade que ele merece, suou desesperadamente no Wellness center lá da rua e, logo a seguir, vingou-se num Hot Dog mas sem molhos para o pecado não ser tão avassalador.

Contratou uma equipa de agentes de limpeza e fez questão de conduzir as suas tarefas para que nada falhasse. No fim recompensou-os mas exigiu o máximo e, na verdade, o resultado foi satisfatório.

Estava tão ansiosa com a chegada da Sally que não conseguia relaxar. Já sodomizou as unhas da mão direita e se, entretanto, a Sally não chegar irão as da mão esquerda. Nesse instante, eis que soa a campainha do seu loft. É a Sally e parece não ter abandonado seus péssimos hábitos. Novamente atrasada.

Brenda corre apressada para abrir a porta e dar início ao seu reencontro. Sem tropeçar no tapete que insiste em pregar-lhe partidas, abre a porta e diante de si surge Sally e um emplastro grudado nela.

- Sou eu Brenda, a Sally e este é o Harold, o meu companheiro. Vim apresentar-to para ver se aprovas.

A sua vontade era puxar a Sally para dentro e bater a porta na cara do Harold e, em seguida, dar uma descompustura na Sally por ter provocado uma surpresa destas tão sem graça. Em vez disso, mostrou-lhes seu teclado branco e sorriu até os apanhar de costas em direcção ao seu sofá vintage.

Harold fazia-a lembrar um dealer com pinta de músico de intervenção. A calça de vinca em tom pastel e a camisola canelada de alça branca cava e, sobre ela caía um cordão em ouro com um crucifixo também em ouro que não deixavam dúvidas sobre a sua identidade. Ténis brancos e meias no mesmo tom.

Na boca o pacote inteiro de pastilhas elásticas que aromatizou o ambiente a mentol, anulando o efeito aromático do incenso que pusera a queimar.

Obrigadinha Harold! Conseguiste provocar-me dor de cabeça. A Sally sabe escolhê-los (Silenciou Brenda).

- Então Sally, não me avisaste que trazias visitas.

- Quiz fazer-te uma surpresa e o telefone, torna tudo tão impessoal e o que eu estou a viver com o Harold é algo que não se pode resumir numa chamada telefónica.

- Entendo. Pena é que programei uma semana só nós duas e vou ter que desmarcar nossas sessões de massagens, SPA, cabeleireiro, manicure, pedicure, compras e demais futilidades feminias. Desabafou Brenda com ar de desilusão.

- Não será necessário Brenda, até porque o Harold está de partida. Vai participar numa bienal de arte comtemporânea na Holanda, o que quer dizer que vamos estar juntas toda a semana. Sossegando assim Brenda que achava comprometido seu esquema de diversão.

- Meu caro Harold, vais deixar tua companheira nas mãos de uma solteira assumida como eu que rejeita qualquer relacionamento sério? Pensa bem Harold. Eu nem sempre sou uma boa influência. Provocava Brenda.

Harold que até ali esteve calado e sorridente, reagiu:

- Brenda, Brenda, não me pareces ameaça e a propósito Sally já me tinha advertido sobre o teu lado provocador.

- Tem piada que quando te vi pensei: não admira Sally ter-te eleito como sua Melhor Amiga. És divertida, descontraída, estimulante e desafiadora do jeito que Sally gosta.

- Afinal és artista plástico ou psicanalista? Gracejou Brenda.

- Um pouco dos dois. Aliás, Harold estava a ser sincero pois antes de enveredar por artes plásticas esteve em dúvidas e, por pouco, não resistiu à tentação de estudar psicanálise.

- E se bebessemos algo para marcar este encontro? Que tal uma Sangria de Vinho branco fresquinha e a acompanhar um camarão cozido? Propôs Brenda.

- Desculpa Amiga, mas o voo do Harold parte dentro de duas horas e ainda temos trinta minutos de viagem até ao aeroporto. Porém, eu volto em seguida. Assegurou Sally.

- Lets go Sally, senão perco a oportunidade de brilhar na Bienal.

Que presunçoso pensei eu mas, se calhar estou a ter um ataque súbito de ciúmes que me impede de socializar com o companheiro da minha melhor amiga.

- Deixem-me acompanhar-vos até à porta. Ofereceu-se Brenda.

- Boa Viagem Harold. A ti Sally, cá te espero para jantarmos no “Santo Graal”.  O nosso santuário gastronómico preferido. Rematou assim Brenda, ansiosa que estava pela partida do emplastro.

Por esta não esperava. Ver a Sally atrelada a um tipo tão pouco inspirador como o Harold. Desfez por completo a imagem que construiu da sua Amiga.

A partir de hoje, encara Sally como uma Mulher mais frágil. O Amor tem este efeito sobre as mulheres. Torna-as indisponíveis, distantes, ocupadas, ciumentas, inseguras, retira-lhes poder.

Sally matou todas as suas expectativas sem piedade. Sally pertence agora ao clube das comprometidas e por mais afinidades que tenham, muda tudo a partir do momento em que transita do EU ao EU & TU. Obviamente que o EU & TU é o novo estado em que se encontra a Sally e Brenda continua a conviver com o seu EU, cada vez mais independente e só.

Não tarda nada apresenta-lhe o seu convite de casamento, logo a seguir anuncia sua gravidez de gémeos e renuncia à sua promissora carreira musical. Tudo graças ao Harold e ao seu efeito vodu.

Brenda ainda tem esperanças que ele seja um gay não assumido que, em breve, irá desmascarar-se e acabar com sua farsa, ou então, vai revelar-se um mau amante daqueles que não largam a meia branca suada do ginásio nem para dar prazer.

Se mesmo assim a Sally se render a um homem desta categoria, certamente Brenda terá que abandonar imagem do passado da sua amiga, que era bem mais estimulante.

Precisava de uma bebida. Dose dupla e sem poupar no alcóol. Atordoada conseguia relaxar e esquecer que foi testemunha de uma transformação radical destas.

Obviamente, exagerou na dose. Suas pálpebras pesavam toneladas. Seu corpo parecia uma pena a deslizar no sofá da sua living room. Efeito KO ao primeiro round.

Ao longe ouve um ruído que ecoa no seu cérebro e nem as suas mãos filtrando o som nos seus ouvidos acabam com esse tormento. Sem alternativa persegue o rasto dessas ondas hertzianas que interroperam seu sono induzido. É a campaínha a anunciar alguma visita ingrata.

Com o olhar ainda turvo espreita no pequeno binóculo e como imagem de fundo vê Sally, ajeitando sua juba incandescente.

Abre a porta lentamente num gesto cansado e contrariado. Impaciente Sally escancara sua entrada coberta por um sortido de cores, que fazem lembrar o jardim da praça.

- Brenda, querida, estás num caco. Apruma-te para sairmos, até porque para me acompanhares tens que estar impecável e a imagem que exibes não condiz contigo.  Desabafou Sally sem dó nem piedade.

Em voz arrastada e macilenta Brenda responde:

- Chegaste cedo. Meteste o turbo para aqui chegares ou usaste os teus altos connects para desviar o trânsito noutro sentido?

-Nop. Deixei o Harold bem entregue. Ficou à conversa com um ex amigo da faculdade de belas artes, por sinal bem jeitoso. Soltou Sally com um ar malandreco.

- Welcome Sally to your past world.

- Porque dizes isso? Intrigou-se Sally com a exclamação de Brenda.

- Julgava-te incapaz de tecer tais comentários agora que te vejo tão comprometida com teu Dear Harold.

- Harold entretém-me com sua ingenuidade, sua juventude, sua beleza, sua vaidade, suas iniciativas, sua descontracção, mas não é o Homem da minha Vida. Esse pertence ao passado e é algo que eu não quero desenterrar porque, ainda dói saber que fui abandonada sem aviso prévio. Vou matando minhas raras horas vagas com o Harold.

- Então porque é que disseste que o teu relacionamento com o Harold é algo que não pode ser resumido por telefone, deixando entender que Vossa relação é poderosíssima. Quiz saber Brenda.

- Tudo isto porque eu preciso encarar minhas relações como únicas e irrepetíveis. Assim convivo melhor com a minha incapacidade de Amar. Ao fazer-te acreditar que estou a viver um momento único convenço-me a mim também que estou a despertar novamente para o Amor. Desfazendo assim as dúvidas de Brenda que julgava ter perdido sua amiga para um aspirante a artista plástico.

- Isso tem um nome. Crise emocional. Diagnosticou Brenda.

- Talvez seja isso. Aos trinta e cinco anos sem história conjugal, afecta qualquer mulher. Até eu, que me acho tão desprendida dessas convenções impostas ao universo feminino.

As mulheres com quem contacto em ambientes sociais, aos quais sou obrigada a frequentar por motivos profissionais, estranham minha condição e lastimam-na como se eu sofresse de um mau karma. Afastam-se para formar grupo com mulheres casadas e progenitoras, partilhando o mesmo tipo de interesses. Sem querer sou arrastada a participar nos núcleos formados por homens, maioria deles casados com esse mesmo género de mulheres, comprometidas com suas crias e sua condição de casadas.  Eles próprios se afastam das suas parceiras e do inatractivo e hermético universo que inclui mil e uma tarefas herdadas com o casamento. Eu não os canso com estas rotinas e meu humor ainda não foi beliscado, pela complexidade da união entre dois seres antagónicos na sua concepção pessoal do que é prioritário. Apesar de tudo consigo ser mais descomplicada por estar ainda solteira e isso agrada principalmente aos homens casados.

As mesmas mulheres que me afastaram das suas conversas, expiam meus movimentos enquanto convivo com seus companheiros e depressa se juntam a nós e, propositadamente encostam-se aos seus parceiros e marcam sua presença, não sossegando enquanto não os arrastam para longe de mim.

- Eu também sou vítima desse estigma mas isso não me impede de ser feliz à minha maneira. Afiançou Brenda.

É tempo agora de sacudir esse negativismo e abalar daqui. Propôs Brenda

Sem hesitar, Sally seguiu-a até à saída e juntas desceram à garagem, onde descansa o BMW mini descapotável, mas maxi a dar nas vistas. Brenda adorava percorrer aos domingos as artérias principais da cidade e despertar interesse à sua passagem. Seu convertível é lindo mas Brenda ainda lhe conferia mais glamour.

Sally mal avistou o seu petit coche de quatro rodas, apressou o passo, anisosa que estava de usufruir do seu confortável e luxuriante habitáculo.

Ambas apreciamos o que é bom e não disfarçamos nosso contentamento cada vez que podemos gozá-lo.

Corrompemo-nos  facilmente com aquilo que é belo, glamoroso, sofisticado e valioso.

A brisa sopra suave e sem anunciar instala-se causando boa sensação. Nem as paragens consecutivas no sinal vermelho nos aborrecem. Não temos pressa, aliás todos os momentos entre nós são agradáveis. É a única relação da qual ainda não me saturei. Dividimos alegrias e tristezas mas jamais dividimos homens. Nisso somos egoístas e insaciáveis.

Finalmente encontro um estacionamento livre, não muito longe do Santo Graal, onde iremos alimentar nossos sentidos e esquecer amarguras, diante de um bom vinho tinto a sugestão habitual do chefe de sala Françoise. Gay assumido e nosso pior concorrente. Surpreende sempre cada vez que nos apresenta seus novos parceiros. Verdadeiros Adónis.

- Bonsoir madames. Exclamou Françoise.

Sorridentes folheram a ementa mas, sem surpresas reservadas escolheram o de sempre. Blanquette de veau (ensopado de vitela).

A sala estava completa e convenientemente pouco iluminada para produzir aquele ambiente intimista e acolhedor.  No fundo da sala, junto à janela, alguém acenava entusiasticamente e Sallt não conseguia identificar quem era, até que Brenda desfez o mistério e adiantou a Sally ser Victor o seu rival na Direcção da Editora Bliss.

Victor dirige a Editora, que isoladamente concorre com a Editora Morning onde Sally é gestora à oito anos e que, orgulhosamente ela tem colocado num lugar de destaque com sua absoluta dedicação, espírito combativo e que convive bem com a pressão do meio bastante concorrencial. Se bem que nos últimos três anos ela tem tido uma pressão maior, altura em que Victor assumiu as rédeas da Editora Pégaso. As suas disputas são conhecidas na imprensa através da qual Victor se tenta autopromover e desafiar Brenda a acompanhar seu sucesso profissional e emocional. Ele insiste em expôr-se e gaba-se das suas conquistas profissionais e arrebatamentos junto do hemisfério feminino. O que Brenda não entende são os constantes reencontros entre eles, que provocados não resultariam tão eficazes e porque insiste ele em devolver-lhe simpatia quando ela tenta ser tão indiferente à sua presença.

Brenda sem grandes movimentos, faz uma vênia com a cabeça e retoma sua conversa com Sally que a olha insistentemente a testar suas reacções após esta interrupção.

Sally percebeu que Brenda ficou inquieta com a presença de Victor apesar de querer demonstar o contrário.  Algo mudou no seu comportamento e, sem dúvida, Victor foi o responsável pela transformação de Brenda, que até corou de entusiasmo quando percebeu que era ele quem lhe acenava de longe.

- Que se passa Amiga? Nunca te senti tão intimidada por um homem. É este o Tal que te vai domesticar? Soltou Sally rindo.

- Deseja-me melhor sorte. Esse traste faz-me a Vida negra e parece que me persegue a cada lugar que vá. Já pensei até interditar a sua entrada nos ambientes que eu frequento. Vou ter que falar com a advogada da editora a saber se legalmente é possível.

- Ele até que é engraçado e parece adorar estar no mesmo espaço que tu. Não pára de olhar nesta direcção e é teus olhos que ele procura para estabelecer contacto visual só que tu teimas em olhar para o lado oposto.

- Sally pára com isso, assim deixas-me ainda mais nervosa do que já estou. Já nem me sabe bem o Blanquette de veau que eu tanto adoro.

- Ok, ok mudemos de assunto então. Que tal planearmos uma viagem juntas?

Já à algum tempo que ando para te propor mas sei que agora andas cada vez mais dedicada à Editora e seus lançamentos de sucesso e teu tempo é cada vez mais escasso.

  – Ultimamente ando muito presa ao meu trabalho porque paira a ameaça de sermos destronados pela Editora desse gabarola mediático que corrompe a imprensa para se autopromover e promover a sua Editora. No entanto, uma semana de férias não irá fazer mossa no meu trabalho, até me ajudará a aliviar deste stress.

- Sendo assim, eu tratarei das nossas viagens e estadia. Tu apenas só terás que preparar as malas e tratar do teu passaporte para embarcarmos daqui a quinze dias.

….. to be continued

Da Autoria de Susana Pinto Ribeiro

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem sou eu que não me acho nem me encontro, onde quer que vá só ou acompanhada.
Uns dias sou de um jeito outros dias sou de outro. O exterior molda meu modo de ser inconstante e de difícil trato. Se fosse um produto de marketing no rótulo diria: Frágil demais.Cuidar bem.
Indiferente sei que não sou embora possa parecer sem querer ser.
Absurdamente modesta por não aceitar que sou melhor do que me acho
Serena tenho muito pouco.
Sorriso nem todos me arrancam
Imaginação fervilhante
Careço de aprovação
Para mim os outros contam muito
Eu nem sempre me sinto em alta
Reagir sem pensar é crónico em mim
Cair no esquecimento doí muito
Sofro por antecipação
Ansiosa its my middle name :)
Sonhadora mas com um pé e mão no chão não vá partir o nariz
Inquieta e nervosa
Humor depende do ambiente que me acolhe
Detesto ser centro atenções
Morrer não me assusta
Assusta-me ter que lidar com a ausência súbita daqueles que amo
Necessito de apreciação para me sentir incluída
Extremamente Emotiva
Tranquilidade que é isso? :)

Escrever é o meu melhor exorcista
Solidão é uma das facetas da tristeza profunda que eu espero não conhecer
Amigos em número só nos facebooks e mesmo assim
Família é a Minha Maior referência de Vida
Meu maior sonho é sentir-me bem na minha pele. Às vezes estranho-me
Descontrair só quando me deito e caio no sono
Ídolos muitos e todos eles desconhecidos e secretos
Amar e ser Amada é a Maior e Melhor sensação de todas
Religião Budista é a que mais se identifica com aquilo que procuro e demoro a alcançar
Porque exige muitas doses de força mental
Fãs tenho poucos pois nem eu mesma me recomendo :)

Autoria de Susana Pinto Ribeiro

A Infelicidade é para os fracassados. Soa mal eu sei mas nós como Administradores das Nossas Vidas somos responsáveis por tudo o que nela acontece de bom ou de mau. Existe uma tendência castradora de culpar os outros pelo nosso infortúnio e evitar mudar o curso da nossa Vida independentemente das circunstâncias.
Estamos muito apegados ao efeito que os outros exercem sobre nós e deixamo-nos consumir com isso e esquecemos que dessa forma estamos a matar tempo útil que podia ser empregue em acções que contribuam para a nossa felicidade.
Quantos de nós não fez aquilo que gostaria de ter feito, com medo de ser condenado ou julgado pela sociedade, pelos amigos, pelos pais, pela família, pelos colegas trabalho? Certamente, lamentamos até hoje não ter estudado mais, não ter mais amigos, não ter arriscado mais, não ter amado mais, não ter um melhor emprego, não ter uma melhor formação, não ter melhor aspecto, não ter viajado mais, não ter uma maior convivência social, não ser mais confiante, não ser mais solto, não ser mais descomplexado, não ser mais criativo, não ser mais autónomo, etc.
De nada serve pisar e repisar estes lamentos, vezes e vezes sem conta, que até já deveriam pertencer ao passado e estão a minar nosso futuro, que assim fica comprometido mais uma vez e, quantas mais vezes insistirmos em reviver a nossa falta de atitude no passado mais o amanhã fica contaminado.
É mais cómodo culpar os outros do nosso estado que mudar esse mesmo estado.
Agir em prol da nossa Felicidade não é uma atitude egoísta é sim condição necessária para vivermos em harmonia connosco e com os outros. Ao bloquearmos o processo felicidade com comodismos, com preconceitos, com invejas, com ciúmes, com desânimo, com sentimentos de culpa, sentindo-nos perseguidos e perseguindo os outros, com julgamentos pessoais, com incompreensão, com intolerância, então jamais saberemos qual é o nosso papel enquanto seres humanos.

Autoria de Susana Pinto Ribeiro

Como a maioria dos portugueses gozo as minhas férias no mês de Agosto, não por vontade própria mas um pouco por imposição profissional, o que me enerva solenemente pois lá vou eu ter que reinvidicar um pedaço de areal para estender a toalha, arriscando a ficar próxima de famílias numerosas com crianças constantemente a correr, aos gritos de euforia, perturbando o meu sossego e enchendo-me de areia nas suas jornadas ida e volta do guarda sol para o mar, a aturar os pais aos berros chamando os filhos para colocar o protector, ou com conversas sem substracto, cheias de calão. Arrisco ainda a ser vítima de uma jogada mal calculada de raquetes de praia por quem insiste em praticar tal modalidade junto dos banhistas, ou, nos piores cenários, por uma bola de vólei ou futebol.

Face a isto tenho duas opções, ou ponho os auscultadores ligando o mp3 em volume máximo ou procuro uma das poucas praias “desertas”, podendo sempre encontrar gente nua ou casais gay, o que é de longe menos perturbador.

 

Paula Pinto Ribeiro